
enquanto todos os outros cachorros do bairro brincavam na praça,
todos felizes com seus donos, o cachorro vivia solitário trancafiado num
pequeno quintal de uma enorme casa.
sempre que lhe era dada a oportunidade de sair e encontrar os demais cachorros,
ele saía corria, brincava, assustava os vizinhos e transeuntes e depois fazia questão de voltar para sua vida pacata e sem maiores liberdades.
inverno, verão, outono, primaveras, dias, meses e anos preso ali sem nada reclamar,
ou melhor, reclamando muito, porém, sempre retornando à prisão.
Durante mais um dos verões pelo qual o cachorro passou, como já de costume, iniciou-se um surto de pulgas, carapatos e todas aquelas doenças que insistem em voltar como num ciclo.
Seu pequeno corpo virava então uma casa para todos os tipos de parasitas, que sugavam toda sua energia e feriam sua velha pele.
uma dessas pulgas, lider do clãs das pulgas que ali habitavam, após tanto tempo convivendo com o cachorro percebeu que mesmo enjaulado e muitas vezes abandonado,
o cachorro insistia em voltar para casa sempre que conseguir fugir para dar uma passeada.
intrigado com tamanho conformismo do cachorro, a pulga teve a ousadia de perguntar ao cachorro.
-ei, disse a pulga.
coitado do cão, achou que stava ficando doido.
-será que estou ouvindo vozes? (disse ele)
-não, retrucou a pulga, é que estou aqui em sua orelha, eu sou a pulga que tanto testaste expulsar com sua pata. e continuou - não consigo entender você, vive nessa vida, alimentam-te mal, não brincam mais com você, não te levam pra passear, mal te dão banho, e você sempre volta pra cá com esse rabo balançando, gostaria de entender o que te prende aqui.
-é o amor ao meu dono, respondeu o cachorro.
-mais é um besta mesmo, ele não está nem ai para você rapaz, fuja novamente, tens um mundo livre lá fora.
-desculpe dona pulga, mas não posso fazer isso, não devo e hoje, já não quero mais. Prefiro viver com pouco a me arriscar no nada, o mundo lá fora é cheio de armadilhas, é verdade, posso ser muito feliz, mas para que arriscar a uma felicidade incerta se aqui posso ter a segurança do meu dono?
-Realmente, disse a pulga enfurecida, mereces o que tem, preferes acovardar e viver precariamente, a se arriscar por mundo a fora atrás do que sempre quis.
Quando o cachorro já estava deixando se levar pela pulga questionadora, ele simplesmente voltou a si e conseguiu esmagar a pulga com um golpe de sua pata.
pulga: consciência.
cachorro: voCê
quintal: nossa vida
dono: chefe, pai, mãe, esposa(o)
.....
Até quando, se pergunte ?
Fellipe Campos
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